sem titulo, parte um
Levanto, coço o saco e vou ao banheiro. Odeio acordar, me sinto confuso. Ficar sem saber o que acontecia com seu corpo alguns segundos atrás, a falta de consciência da inconsciência me causa uma sensação de desconforto. Não reparo na bagunça do banheiro, mesmo que eu seja um babaca perfeccionista que não deixa um clips fora da caixa, uma chave fora do gancho, uma meia sem par.
Vou direto a pia. Ignorando as manchas de pasta de dente, ignorando a escova com cabelos, os cotonetes usados, o fedor fecal vindo do vaso. Nenhuma dessas repugnâncias se fixaram na minha cabeça. Estava confuso. Ligo a torneira e sinto com prazer a água fria em minhas mãos. A água serve para apagar a confusão que o sono impõem. Mas quando me vejo no espelho queria continuar confuso.
Loiro? Que porra é essa, meu cabelo é castanho! A diferença é gritante. Não sou eu no espelho. Ironicamente queria voltar a confusão anterior para me sentir menos confuso. Antes a sonolência que essa imagem doente na minha frente. Este não é meu olho, não é meu nariz, não é minha boca, um piercing! A pessoa a minha frente não sou eu. Ouço um telefone tocando, um celular para ser mais exato. Um desses toques polifônicos detestáveis deve ser uma musica do Belo ou da Kelly Key, sei lá o que é que ta na moda esses dias.
O celular me faz parar de pensar no espelho e ver o banheiro. Este não é meu banheiro. Rapidamente todos seus detalhes nojentos dominam meu pensamento. Sinto uma pequena vontade de vomitar, mas me controlo. Como que cheguei aqui inconscientemente? Quando levantei da cama e vim para o banheiro sabia exatamente para onde estava indo.
Atravesso a porta para o quarto parar ter uma mulher noção de onde estou e não acredito no que esta na cama. Só o que consigo pensar é “que porra é essa?”.
Fim da parte umNão reconheço a mulher que esta morta na minha cama. Mulata e bonita. Ela esta de costas e sua bunda perfeita nua quase me excita. O sangue esta em todo lugar. Talvez exista a pequena possibilidade dela estar viva, mas tenho medo. Não consigo nem juntar coragem para dar a volta na cama e ver seu rosto, talvez a conhecesse, mas quem poderia ser. Não conhecia mulheres de corpo tão perfeito pessoalmente. Uma prostitua talvez. Poderia até ser um travesti.
Caralho, um travesti na cama comigo que nojo. A preocupação com a minha masculinidade finalmente me da a coragem necessária para dar a volta na cama. Não era um homem. Mas novamente me arrependo, preferia o medo e a confusão que a realidade a minha frente. Não havia piroca, mas uma boceta bem raspada e muito bonita, mas eu nem a vi. A única coisa que eu consigo ver são as tripas da mulher espalhadas no lençol, dessa vez não seguro, e vomito. Regurgito comida que não me lembro de ter comida e sinto queimar minha garganta uma cachaça que não lembro de ter tomado. Demora uns momentos para me recompor meus olhos lacrimejando e meu rosto inchado. No momento de desespero quase desmaio, mas o medo horrível de ter de acordar novamente nesse quarto, de repassar pela experiência de me desconfudir, me mantêm acordado.
Pela primeira vez tento me lembrar de como poderia ter vindo parar neste lugar horrendo, com essa companhia bela e flagelada. Não consigo me lembrar de nada que me aconteceu nos últimos dias, ou até no ultimo mês. Me desespero. Que dia é hoje?
Começo a considerar se estou com amnésia e resolvo pensar no que eu sei ao invés de fazer perguntas. Meu nome é Paulo Nunes e nasci no rio.
Fim da parte dois

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