30.3.05

Lobos

Pre-estreia de um conto meu que deve sair no jornal do ceat semana que vem.


É natural que meninos brinquem, tão natural quanto eles sentirem medo, mas há alguns que brincam de sentir medo.
Encolhido no único canto iluminado do sótão de sua casa, um pequeno menino de cabelos loiros olha para dentro da escuridão fascinado, seu corpo treme. Ele vê coisas no escuro, coisas que não estão lá, coisas que estão em sua cabeça, mas que qualquer outra pessoa que estivesse ali enxergaria, o escuro transforma as coisas. Os objetos, que no claro seriam admirados por sua beleza e sua perfeição, tornam-se elementos aterrorizantes que a qualquer momento podem te rasgar em pedaços.
O menino loiro abraça seus joelhos e treme, mas continua olhando para o escuro ele não quer desviar seu olhar, não consegue parar de sentir. O tempo passa e o refúgio iluminado do menino, que vem de um buraco na telha, fica cada vez menor. Quando o sol está prestes a se por e o menino quase não segura o choro de tanto medo, a luz do sótão se acende e sua mãe vem pegá-lo no colo. Ele sorri, e beija a mãe.
Isso se repetia quase todo dia, refugiar-se no sótão era uma das brincadeiras favoritas do menino, os pais no princípio estranhavam, mas ,como ele nunca se machucava, eles resolveram deixar que ele brincasse como quisesse. Eventualmente o menino se cansou do sótão, não possuía mais o mesmo efeito, o menino era sedento por adrenalina. Foi quando ele se pendurou do telhado da casa que os pais começaram a se preocupar; ele ficou meia hora pendurado por um braço só imaginando o que aconteceria se ninguém viesse (salva-lo) salvá-lo a tempo. Seus pais passaram a brigar com ele, mas ele não se importava, ele não tinha medo dos pais, e nem respeito, por mais que tivesse amor.
Os pais trancaram o menino no quarto por um mês e pensaram que isso bastaria para que ele aprendesse sua lição, ele agiu como uma criança normal por 5 dias, até que sua escola fez um passeio para o zoológico.
Foi quando ele chegou na jaula dos lobos, que ele parou de agir como uma criança normal novamente. Olhou fascinado enquanto eles brigavam um com o outro pelo pedaço de carne na mão do alimentador do zoológico. Os dentes e os barulhos que os lobos faziam encantavam o menino, ele permaneceu ali pelo resto do passeio. Talvez, para seu próprio bem, o menino nunca chegou a ver a jaula dos leões.
Na hora em que o grupo da escola estava se reunindo para ir embora, o menino estava ocupado demais escalando a grade que separava os visitantes dos lobos. Ninguém percebeu o que fazia, já estava na hora do zoológico fechar e, para a maioria das pessoas, os lobos não passavam de cachorros grandes e de animais que só dão medo em contos de fadas.
Os animais sentiram o cheiro do menino no momento em que ele encostou na grade, eles sabiam o que o menino ia fazer, e eles se prepararam(, enquanto). Enquanto ele estava descendo pelo lado de dentro da grade, um dos lobos pulou contra a grade. No que ela balançou, o menino caiu no chão de uma altura de quase três metros, seu braço estava quebrado. Mas antes que ele sentisse a dor do osso quebrado. seu braço já estava na boca de uma fêmea. E, logo, o resto do bando atacou junto, foi rápido demais. Antes de entender o que estava acontecendo, o menino já estava desacordado. Ele não teve nem tempo para sentir medo.
Os funcionários do zoológico nunca teriam esperado essa reação dos animais, nunca ouve um caso de ataque anterior a esse, todos os lobos foram mortos a pedido direto do prefeito da cidade; A jaula foi desativada por tempo indeterminado. Por sorte, ou muito azar, o menino sobreviveu. Ele perdeu a maior parte de suas duas pernas, e o braço que restava, provavelmente, teria de ser amputado, pois a maior parte dos músculos e tendões tinham sido estraçalhados. Do torso o menino havia perdido um pulmão, um rim, e uma grande parte do fígado e do intestino. Os médicos disseram que foi um milagre que ele tenha ficado com exatamente o mínimo necessário para que pudesse permanecer vivo, seu rosto estava dilacerado. A única coisa intacta era seu coro cabeludo, seus cabelos, loiros como o sol, permaneciam lindos como sempre tinham sido, desde o dia em que ele nasceu.
Quando acordou, o menino não falava mais, suas pupilas vibravam no centro de seu olho e ele não conseguia desviar o olhar como se houvesse uma agulha mantendo-os no lugar e ele estivesse lutando para soltá-la. Em sua mente, ele via os lobos brincando na sua frente, como que zombando dele, ele estava petrificado de medo. Em todos os sentidos, ele era um vegetal, mas ele estava consciente e aterrorizado, ele viveria o resto da vida sentindo o medo que não pode sentir no momento em que caiu. Todos lamentavam o que aconteceu com o menino e os pais choravam sobre o acontecido toda vez que cuidavam dele.
Um ano e dois meses depois do acidente o menino morreu. Neste tempo ele só dormia quando era sedado. Seus pais choravam toda vez que o viam, perguntavam o que haviam feito. Eles se culpavam, todos assumiam a culpa, inclusive os funcionários do zoológico e a professora que tomava conta do passeio. Deitado imóvel na cama, era impossível distinguir a expressão facial do menino por causa das cicatrizes, ninguém nunca soube que ele estava sorrindo, que o medo era seu êxtase e que apesar de tudo, ele morreu feliz.

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